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Trate com Cuidado
Pela primeira vez uma campanha solicita aos governos do mundo que parem com o transporte de longa distância, cruel e desnecessário, de animais para o abate
A coalizão denominada "Trate com Cuidado", composta por diversas organizações internacionais e da qual a Sociedade Mundial de Proteção Animal (World Society for the Protection of Animals – WSPA) faz parte, lança campanha internacional, visando acabar com o transporte por longas distâncias de animais para o abate. Com este transporte, tal como é feito hoje, todos perdem – os animais e a economia dos seres humanos. A mudança na legislação e o esforço para que o público compreenda o quanto esta prática é cruel e desnecessária, são metas dessa iniciativa.
Imagens de câmeras escondidas, registradas ao longo de dois anos, revelam a brutalidade do transporte de animais por longas distâncias, apenas para serem abatidos ao final da jornada. Como mostra a investigação, muitos animais morrem durante a viagem ou adoecem pelas péssimas condições do transporte.
Politicamente, a campanha pretende convencer os governos e principais agentes na tomada de decisões a alterar as práticas e a introduzir nova legislação de proteção ou de melhoria do bem-estar animal.
Antonio Augusto Silva, Diretor Regional da WSPA Brasil, destaca que essa atividade prejudica o País. “O sofrimento por que passam esses animais é inaceitável no século 21. E não é só isso; o transporte de animais vivos faz os países exportadores deixarem de arrecadar tributos e gerar empregos”, afirma. Segundo ele, é preciso substituir essa atividade pelo comércio somente de carne industrializada e pôr fim a um tipo de transporte que não faz mais sentido.
O transporte de carne resfriada e congelada através do mundo acontece há mais de 125 anos. Ainda assim, milhões de bovinos, suínos, ovinos, caprinos, frangos e cavalos sofrem e morrem durante o transporte por longas distâncias todos os anos, num comércio cruel e desnecessário, que dissemina doenças pelo mundo e causa sofrimento aos animais.
Rotas
O site da campanha reúne farto material sobre o tema, além de divulgar a carta a ser encaminhada ao governo brasileiro, que poderá ser assinada pelos internautas, pedindo o fim desse tipo de transporte. O documento deverá ser enviado no prazo de dois meses.
A campanha chama atenção para quatro das piores rotas enfrentadas pelos animais – gado do Brasil para o Líbano, ovinos da Austrália para o Oriente Médio, cavalos da Espanha para a Itália e suínos do Canadá para o Havaí (veja quadro).
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Principais Rotas
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Animais exportados ao ano
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Duração da viagem
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Brasil para o Líbano
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183 mil bois
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3 semanas
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Austrália para o Oriente Médio
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4 milhões de ovelhas
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3 semanas
a 32 dias
(para os gansos)
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600 mil bois
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57 mil gansos
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Canadá para o Havaí
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15 mil suínos
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7 dias
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Espanha para a Itália
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10 mil cavalos
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36 horas
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No caso da rota Brasil-Líbano, a cada semana, milhares de bovinos são exportados vivos em uma jornada de três semanas de Belém do Pará a Beirute, apenas para serem abatidos no destino. No calor da Amazônia, os bovinos são esmagados em caminhões de forma a não conseguirem se mover ou deitar, em uma viagem de três a quatro dias, sem comida ou água. Uma vez no porto, eles são brutalmente carregados nos navios com bastões elétricos.
Olinda Cardias, presidente do Instituto ASSCOMA - Defesa Animal e Educação Sócio Ambiental, instituição afiliada à WSPA - é testemunha do sofrimento por que passam esses animais. "Diariamente presencio, na BR 316, próximo da minha casa, os caminhões transportando bois, em condições absolutamente precárias, deixando um rastro de dejetos e mau-cheiro na rodovia. O mesmo se dá no período de confinamento, enquanto aguardam o embarque", revela. E os maus-tratos seguem mar adentro. Segundo ela, no ano passado, um navio libanês carregando gado afundou parcialmente na Venuzuela, e mais de 1700 animais morreram afogados.
Segundo notícia publicada pelo Diário do Pará, em janeiro deste ano, as vendas do chamado boi em pé cresceram 466,5% em relação ao ano de 2006. Os dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior indicam que a exportação de gado do Brasil para o Líbano vem crescendo desde 2003. Entre os animais que são exportados por essa rota, estão também os que vêm do Rio Grande do Sul. Depois de sofrerem com o transporte através do Brasil, são submetidos ao sofrimento nos navios rumo ao Líbano, em viagem que dura mais de duas semanas, muitos dos quais chegando mortos no destino – o índice de mortalidade é de 8 a 10%. Confira na tabela os números oficiais da exportação nesta rota.
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Número de Bovinos exportados para o Líbano
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Ano
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AP
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PA
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SP
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RS
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Total
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2003
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1.971
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1.971
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2004
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10.290
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10.290
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2005
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41.437
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25.100
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43.873
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110.410
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2006
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133.190
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42.416
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69.357
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244.963
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2007
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3.441
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170.928
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9.377
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183.746
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Total
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3.441
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357.816
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67.516
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122.607
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551.380
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Fonte: Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior
(aliceweb.desenvolvimento.gov.br)
Em outubro de 2007, a Juíza Rosileide Maria da Costa Cunha Filomeno, titular da 3ª Vara Cível de Fazenda Pública de Belém, proibiu o embarque de gado no porto de Belém. A liminar foi concedida pela juíza após ação civil pública, impetrada pelo Promotor de Justiça Benedito Wilson Sá, do Ministério Público de Belém (confira entrevista do promotor nesta edição do OLA) e representação feita pelo Instituto ASSCOMA.
A medida teve grande repercussão e deixou em evidência os maus-tratos aos animais, os impactos causados em região turística de Belém e os problemas relativos à verticalização da economia – deixando de gerar mais divisas e empregos no setor para o Brasil, como também o sofrimento dos animais e as dificuldades do transporte antes de chegarem ao porto.
“Há uma grande variação nas condições do transporte de animais de produção no Brasil. Em alguns casos os animais enfrentam condições muito ruins, com alto risco de deterioração de seu bem-estar”, revelam os autores do artigo “O Transporte de Animais de Produção no Brasil”, do Grupo de Estudos e Pesquisas em Etologia e Ecologia Animal (ETCO), da UNESP-SP. Entre os autores, está o professor do departamento de Zootecnia da Faculdade de Ciências Agrárias e Medicina Veterinária, Mateus Paranhos da Costa. No texto, o Grupo destaca que entre os problemas enfrentados no transporte de animais, estão as condições precárias das estradas e rodovias, a ausência de infra-estrutura, manejo inadequado dos animais, principalmente nos procedimentos de embarque e desembarque, e as longas distâncias. Apesar das dificuldades apontadas, os autores concluem que “há uma tendência positiva para melhorar o transporte dos animais de produção. O governo brasileiro e parte da indústria da carne estão interessados no desenvolvimento de estratégias para melhorar as condições de transporte, seguindo as recomendações da OIE” (Organização Mundial de Saúde Animal). Segundo eles, há uma boa oportunidade para a implantação de projetos técnicos e educacionais para alcançar esta proposta.
Campanha
Ingrid Eder, Gerente de Programas da WSPA Brasil, ressalta que houve muita pesquisa sobre o assunto e o material está disponível no site, para que pessoas e governos possam refletir e agir, no sentido de pôr fim a esse tipo de transporte, cruel e desnecessário, no Brasil e no mundo. Segundo ela, o apoio da população será fundamental, para que haja mudanças, tanto no cenário legislativo, quanto nas decisões governamentais.
A Gerente de Animais de Produção da WSPA, Charli Ludke, destaca que todos os animais para o abate merecem um tratamento humanitário, que vise diminuir o sofrimento no manejo pré-abate. Engana-se quem pensa que os animais para abate podem ser manejados de qualquer forma. Segundo ela, dentro das etapas do pré-abate, o transporte é considerado o momento mais estressente, principalmente no que se refere à exportação dos animais para o abate no Líbano. A Gerente explica que durante as longas jornadas, de 18 a 21 dias, os animais sofrem estresse em conseqüência da mudança do ambiente e da dieta. A superlotação promove a mistura de lotes desconhecidos e brigas, até o estabelecimento de uma nova hierarquia social, situação que também é ressaltada por Ludke como um fator estressante para os animais. "Outro problema é a alta temperatura a que os animais são expostos durante a viagem, devido ao calor gerado pelo rebanho e o motor do navio, associado à alta temperatura ambiental e às precárias condições de ventilação dos decks fechados dos navios", afirma.
“Você sabia que, neste momento, existem muito mais animais sendo transportados vivos do que seres humanos?” Com esta frase, gravada em vídeo para a Coalizão ‘Trate com Cuidado’, a atriz Betty Gofman conclama as pessoas a aderirem à campanha. “Sou apaixonada por animais e fico estarrecida e entristecida com a forma com que as pessoas os tratam”, afirmou em depoimento ao programa de rádio Trilha Animal. A atriz falou sobre a sua participação nas campanhas da WSPA – ‘Para Mim os Animais Importam’ e ‘Trate com Cuidado’ – como sendo uma forma de contribuir, na qualidade de atriz e de pessoa pública, para que as pessoas lancem um novo olhar sobre o mundo, mudem comportamentos e ajudem a diminuir o sofrimento dos animais. “É também uma forma de expressar a minha indignação”, revela.
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10 boas razões para acabar com o transporte de longa distância de animais para o abate
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1. É cruel: Dezenas de milhares de animais morrem ou se ferem gravemente todos os anos durante o transporte.
2. É desnecessário: Essa comercialização representa um retorno ao passado, quando não havia alternativas para o abate próximo aos locais de criação.
3. Reduz a qualidade da carne: Existe uma relação direta entre o tempo de transporte e a qualidade da carne, além dos prejuízos econômicos.
4. Promove a disseminação de doenças: De acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), surtos prejudiciais economicamente, como a Peste Suína, Febre Aftosa e Gripe Aviária, foram disseminados pelo transporte de animais vivos.
5. Fornece risco à disseminação de doenças em seres humanos: De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) estas doenças incluem 11 dos 12 agentes mais perigosos de bioterrorismo.
6. É ruim para a economia – exporta empregos: Substituir a exportação de animais pela exportação de carne industrializada gera empregos nas agroindústrias, e retém mais dinheiro no país exportador.
7. É impopular na opinião pública: Enquetes australianas mostram que 6 a cada 10 pessoas concordam que a exportação de animais é cruel.
8. É difícil ser justificado economicamente: Pela facilidade de transportar carne resfriada ou congelada, associada à tecnologia da refrigeração, não existem mais desculpas aceitáveis para que o transporte de animais por longas distâncias para o abate continue.
9. A fiscalização do transporte de carne custaria menos do que legislações complexas de transportes de animais: A União Européia (UE) tem a legislação mais abrangente do mundo em relação ao bem-estar animal durante o transporte. Apesar disto, a UE documentou irregularidades persistentes aos requerimentos legais para proteger os animais durante o transporte.
10. Já está sendo substituído por um crescente comércio de carne – essa crueldade precisa acabar: Existem evidências científicas suficientes sobre o bem-estar animal, qualidade da carne e segurança alimentar para acabar completamente com o transporte por longas distâncias.
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